sábado, 6 de março de 2021

Composição Cafeeira

 Me sinto triste, abatido. Decepcionado com a pessoa que mais importa: eu mesmo. Saudades de tomar café passado, mas não esse que eu faço, um que eu nunca tomei. Saudades, de fato, de não ter responsabilidades e simplesmente provar o café. Não o meu, outro café.

A pior decepção é a auto decepção. Porque você vai olhar a sua decepção no espelho, sem poder desviar o olhar. Porque você vai ouvir as vozes cobradoras na própria mente. Porque você nunca esquece, você jamais esquecerá. Um breu no lugar do coração, os olhos fardos e pesados, aqueles olhos que um dia já foram ávidos, de brilho alaranjado quando sabia o que queria e como queria. Não pense mal de mim; entenda, a vontade ainda está aqui e eu ainda sei onde quero chegar e como quero chegar. O problema é que eu cansei. Estou cansado e isso não se parece com café. Pelo menos não com o café passado, desses que eu gosto.

Larguei meus projetos, minhas paixões, tudo aquilo que sempre amei fazer pelas responsabilidades da vida adulta. Ninguém me ensinou, ninguém me redigiu um manual ou um guia consultivo, tampouco tive um "empurrão" por parte dos pais: Um carro, uma ajuda na faculdade, uma indicação no primeiro emprego. Não quero bancar a vítima, tudo isso já está no passado, porém, as cicatrizes e as decepções se arrastarão amargamente até o fim dos meus breves dias nessa vida. Eu não quero morrer, eu quero um café. Desses passados na hora, mas não o meu café, esse eu estou cansado de tomar.

Escrever sobre a vida é como passar um bom café, desses que eu não sei fazer. Começa na seleção do grão a ser plantado, no seu tempo de cultivo, maturação do grão, sua torra, moagem e embalo. Até chegar nas nossas mãos, já irreconhecível, porém, com o DNA de tudo que trouxe consigo. Se a água não for aquecida adequadamente, tudo terá sido em vão e você só terá um café amargo e sem graça. Desses que eu não quero tomar. Eu quero tomar um café desses passados, um que não seja da minha responsabilidade.

Será que alguém entenderia? "Bom dia. Por favor, um café sem responsabilidade, desses que vocês fazem aqui, passado". "É que eu entendi que a vida é uma sucessão de responsabilidades infinitas até o nosso ciclo finito se encerrar. Pra viagem, por favor".

Quanto custa o seu café passado? Quanto custa o seu café pequeno?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Anomalias

 O choro, aquele sentido, já não existe mais. Talvez por falta de sofrimento; talvez pela experiência de tantos sofrimentos passados. A vida, agora cinza e insossa, também passa breve pelos olhos fartos e com grandes bolsas de insônia. O café passado nunca foi tão presente. Em risos breves, monotonias infinitas e conversas sem profundidade alguma, mais um ciclo se encerra para que outro possa ter início. Começar nunca foi o problema, tampouco, acabar. O real problema sempre foi se manter. Permanecer, se assim você preferir. Tantas pessoas ao redor com suas conquistas importantíssimas, tanto zelo em suas preparações e afinco em suas ambições, enquanto eu, esta minúscula parcela da sociedade acinzentada, observo com minha sobrancelha elevada e meio sorriso debochado.

Eu não consigo entender como vocês não entendem. Eu não era assim. Eu era como vocês. Eu já fui um de vocês. O que aconteceu comigo?

Amarguras já não são amargas, praticamente não tem gosto. Um cigarro aceso, a mais ou a menos, já tanto faz. Garçom, um copo de amor, por favor. O de sempre.

De segunda a segunda, ou, se preferir, de segunda a domingo, permanecemos abertos e pensativos. Aqui não é o típico lugar onde você irá encontrar companhia, apesar de sempre cheio. Não, aqui as mesas não são divididas e as comandas são individualizadas. No alto, uma placa que diz "|AQUI O SEU PROBLEMA NÃO É NOSSO - A GERENCIA|". Heh, um riso bobo. Aqui servimos a pior coisa do mundo: Solidão, acompanhada de pensamentos infinitos. Também temos tristeza infundada, mas essa já é prata da casa, é o nosso couvert e você irá consumir mesmo se não pagar. E, ah, você vai pagar por isso.

Saindo dali, será que realmente estive lá? Ou será que, aquele lugar, agora, permanece em mim? Difícil dizer. Existe poesia na tristeza que só um coração que já foi quebrado é capaz de enxergar. Meus pedaços, mesmo quando colados forçadamente, não me fazem inteiro. Eu nunca mais serei quem eu era e jamais chegarei perto de ser o que eu gostaria de ter sido. A vida já passou, e eu perdi o bonde. A minha janela de oportunidades foi trancada por mim mesmo, e as chaves, arremessadas de olhos fechados para não saber onde caíram.

Apelando licença poética, irei parafrasear o autor com um toque pessoal: É o fim do mundo todo dia ao pé da cama.


Feliz 2021.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Brevidades sobre a vida

 Um devaneio ensaiado:


Um fato é uma informação sem base emocional;

Uma opinião é uma informação baseada em experiências;

Ignorância é uma opinião sem embasamento em qualquer informação;

Estupidez é uma opinião que ignora um fato.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Literal(mente)

 Um sopro. Um frio repentino.


Literalmente este não foi um bom dia. Literalmente eu me senti deslocado. Em outras palavras, minha mente literal não esteve em pleno funcionamento. Espaçamentos sensoriais e lineares me fizeram, literalmente, literal. 


Mente. Mente para sua mente, literalmente.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Novembramos

Eu amo Novembro. Essa sensação de quase Dezembro, a conclusão de tantas coisas no trabalho e na vida acadêmica, tudo se encaminhando. Tudo se fechando e eu me abrindo para o mundo. É engraçado imaginar que a nossa vida não para nem por um momento, mesmo quando parece que somos apenas o plano de fundo de alguma outra história.

Hoje tive vontade de escrever, mas achei melhor não fazer isso. Meus sentimentos me assustam, sejam os mais doces ou os mais amargos deles. Esse turbilhão sempre me resumiu, mas eu não quero mais fazer parte da tormenta. Eu quero chocolate quente, um afago e um cobertor limpo. Eu quero um banho quente num dia frio, uma boa notícia naquele dia improvável e um abraço de saudades de quem está longe de mim (em outro continente).

Novembro chegou e tantas coisas não mudam, tanta gente fazendo merda por aqui e por ali, mas tudo há de se fechar, tudo há de se concluir. Minha solidão é a minha maior força, o meu maior prazer está em vagar e ficar de boca fechada. Amigos, os poucos que restam, não fazem a menor ideia da verdade e eu não poderia me importar menos.

Somos eu e você, meu breve reflexo neste monitor.